A retomada dos estudos tem se tornado uma realidade para cooperados da Cootravipa. Criado para incentivar a continuidade da formação escolar entre os sócios que precisam interromper os estudos ainda jovens, o programa Estuda Mais busca ampliar o acesso à educação e fortalecer oportunidades de desenvolvimento pessoal e profissional dentro da cooperativa.
Entre 2023 e 2024, o programa Estuda Mais apoiou 95 cooperados em diferentes etapas da trajetória educacional. Desse grupo, 56 já concluíram etapas de formação, que vão desde processos de alfabetização até cursos de ensino superior. Entre os resultados, um dado chama atenção: cinco cooperados que eram analfabetos foram alfabetizados por meio da iniciativa, evidenciando o impacto social do programa.
Origem do projeto e papel da educação
O Estuda Mais foi estruturado pela Cootravipa como uma iniciativa de incentivo à formação contínua dos cooperados, ampliando as possibilidades de qualificação e desenvolvimento pessoal dentro da cooperativa.
Para a presidente da Cootravipa, Imanjara Marques de Paula, a educação tem um papel estratégico na construção de trajetórias profissionais e na ampliação das oportunidades de vida dos associados. “A educação é uma ferramenta de transformação. Quando o cooperado volta a estudar, ele amplia seu repertório, ganha mais autonomia e passa a enxergar novas possibilidades para a própria trajetória”, afirma.
Segundo ela, iniciativas como o Estuda Mais também reforçam valores centrais do cooperativismo. “O cooperativismo acredita na educação como um caminho para fortalecer as pessoas e as comunidades. Apoiar os cooperados nesse processo é uma forma de estimular o desenvolvimento humano e também de fortalecer a própria cooperativa”, acrescenta.
Acompanhamento e impactos
De acordo com Adiles dos Santos, coordenadora de Desenvolvimento Humano e Organizacional da Cootravipa, o Estuda Mais foi estruturado para atender diferentes realidades educacionais dentro da cooperativa, oferecendo apoio desde etapas iniciais de escolarização até cursos técnicos e ensino superior.
O programa também conta com acompanhamento interno para apoiar os cooperados durante a trajetória educacional, especialmente aqueles que retomam os estudos após longos períodos afastados da escola. “O programa considera que cada cooperado tem uma trajetória diferente. Há pessoas que estão retomando a alfabetização e outras que já chegam ao ensino técnico ou à universidade. O objetivo é criar condições para que todos possam avançar no seu próprio ritmo e ampliar suas perspectivas”, explica.
De acordo com Adiles, além da formação escolar, a iniciativa também contribui para fortalecer a autonomia dos trabalhadores e ampliar a participação dentro da própria cooperativa. “O acesso à educação gera confiança e abre novas possibilidades. Muitos cooperados passam a se enxergar de outra forma, participam mais das atividades da cooperativa e ampliam seus projetos de vida”, afirma.
Investimento e resultados
Para sustentar a iniciativa, a Cootravipa também destina recursos específicos à formação dos cooperados. Entre 2022 e 2025, o programa recebeu R$ 385,7 mil por meio do Fundo de Assistência Técnica, Educacional e Social (Fates).
Os recursos são utilizados para apoiar despesas diretamente ligadas à permanência dos cooperados nos estudos, como mensalidades de cursos, aquisição de materiais didáticos, transporte e outros custos associados à rotina educacional. O objetivo é reduzir barreiras práticas que muitas vezes dificultam a continuidade da formação entre trabalhadores que conciliam estudo e trabalho.
Os resultados do programa também começam a aparecer em momentos simbólicos, como as cerimônias de formatura registradas nos últimos anos. Há registros de cooperados que concluíram cursos universitários em 2023, 2024 e 2025, com nova formatura prevista para 2026, reunindo participantes que avançaram no ensino superior com apoio da iniciativa. Além do impacto na trajetória individual dos cooperados, o Estuda Mais também recebeu reconhecimento externo. O projeto foi premiado no Top Ser Humano, concedido pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), que destaca iniciativas de gestão de pessoas com impacto social.
Programa educacional se revela nas histórias de quem decidiu recomeçar
A decisão de voltar a estudar na vida adulta reúne motivações diversas. Entre cooperados da Cootravipa, os relatos passam pelo desejo de concluir etapas interrompidas da formação, ampliar possibilidades no trabalho e acompanhar mais de perto a vida escolar dos filhos.
Aos 37 anos, Thamires Pedroso dos Santos está iniciando uma nova etapa no ensino fundamental. Para ela, a entrada no projeto representa uma oportunidade importante. “Pra mim já é uma coisa grande, bem legal”, afirma. Sem filhos, Thamires diz que espera aproveitar mais essa nova fase e avalia que o retorno aos estudos pode trazer efeitos tanto na vida pessoal quanto na profissional.
O cooperado Emerson da Rosa Novak, de 32 anos, também decidiu retomar os estudos após um período longo fora da escola. Ele conta que teve dificuldades ao longo da trajetória escolar e que agora quer reconstruir essa relação com o aprendizado. “Meu tempo de estudo foi muito complicado. Eu tive muita vergonha de ler na frente dos outros. Hoje não. Hoje eu quero”, relata.
Pai de três filhos, Emerson associa essa decisão também à rotina da família. “Quero poder ajudar eles quando perguntarem alguma coisa da escola”, diz. Segundo ele, voltar à sala de aula também tem relação com o exemplo que deseja dar dentro de casa. “Tenho três filhos e quero dar exemplo para eles.”
No caso dele, o ingresso no projeto também foi influenciado pelo incentivo de um colega de trabalho. Emerson conta que tinha receio de começar sozinho, até receber o convite de Gelson, seu líder no serviço. “Ele disse: ‘Eu também tenho só até a terceira série, vamos juntos’. Isso me deu coragem para começar”, afirma.
Outra trajetória é a de José Rosalino, pai de nove filhos. Ao falar sobre a decisão de voltar a estudar, ele menciona a formação dos filhos e o desejo de seguir avançando também no próprio percurso. “Um já se formou em Direito, outra em Administração. Agora eu também quero continuar para crescer um pouco”, diz.
Rosalino afirma que a leitura faz diferença em várias situações do dia a dia e que o retorno à escola tem relação com isso. “Quando a gente não sabe ler direito, muita coisa fica difícil”, resume. Ao falar sobre esse momento, ele destaca que deseja aproveitar a oportunidade para aprender conteúdos que considera importantes, como leitura, matemática e história.
A mesma intenção de retomada aparece no relato de Paulo Giovanni, de 45 anos. Ele conta que estudou apenas até o primeiro ano e que agora decidiu reiniciar o ensino fundamental. “Vou voltar e começar tudo de novo no ensino fundamental. Quero crescer um pouco”, afirma. Segundo Paulo, a expectativa é seguir estudando depois dessa etapa inicial. “Quero iniciar o ensino fundamental e depois continuar”, diz. Para ele, a volta à escola está ligada à possibilidade de ampliar conhecimentos e avançar em diferentes áreas da vida.
Os depoimentos mostram trajetórias distintas, mas com pontos de contato. Em comum, os cooperados relatam a decisão de retomar os estudos como parte de um projeto de continuidade, aprendizado e ampliação de perspectivas.